As compras pelas redes sociais deixaram de ser experimento no Brasil. No primeiro ano de operação do TikTok Shop no país, o volume vendido pela plataforma multiplicou por 102. A receita gerada por transmissões ao vivo avançou ainda mais, e o pedido nasce em picos que chegam de uma vez ao vendedor.
Um ano de TikTok Shop no Brasil em números
O balanço do primeiro ano mostra um canal que saiu de volume simbólico para escala relevante no comércio digital brasileiro.
O levantamento publicado pelo E-commerce Planet acompanha a plataforma desde a estreia no país. Os números tratam de volume bruto de mercadorias, o total vendido antes de descontos e devoluções. O avanço mais forte aparece no formato ao vivo, que concentra pedidos em poucas horas.
Os dados do período inicial, reunidos na reportagem sobre o primeiro ano do TikTok Shop no Brasil, mostram o tamanho do salto:
- Volume bruto mensal de mercadorias: de US$ 1 milhão para US$ 46 milhões
- Receita gerada por transmissões ao vivo: crescimento de 161 vezes
- Transmissões diárias: 20 vezes mais
- Afiliados ativos: 46 vezes mais
- Vendedores cadastrados: 11 vezes mais
- Usuários da plataforma no Brasil: 134 milhões
- Compradores que concluem o pedido sem sair do aplicativo: 57,8%
A leitura desses números é direta. Um canal que nasceu como vitrine de descoberta virou ponto de venda, e o crescimento veio concentrado no formato que produz picos curtos de pedido. É esse desenho que empurra as compras pelas redes sociais para outro patamar de exigência operacional.
Por que a compra dentro do aplicativo avança mais rápido
A compra dentro do aplicativo avança porque encurta o caminho entre a descoberta do produto e o pagamento.
A pesquisa CNDL e SPC Brasil mediu esse hábito entre consumidores de todo o país. O levantamento separa quem apenas pesquisa nas redes de quem já fecha o pedido por lá. A distância entre os dois grupos explica por que as compras pelas redes sociais crescem mais rápido que a loja virtual separada.
O resultado da pesquisa sobre consumidores que compram direto das redes sociais coloca o hábito na metade da população consumidora:
- Já compraram direto por uma rede social: 49%
- Pesquisam produtos nas redes antes de decidir: 99%
- Apontam rapidez e praticidade como motivo principal: 35%
O primeiro número mostra que a rede social virou etapa obrigatória da decisão de compra. O segundo mostra que a etapa seguinte, a do pagamento, também migrou para dentro do aplicativo. O social commerce, nome dado a esse comércio dentro das redes, deixa de ser vitrine e passa a ser caixa.
O que acontece depois do clique em uma live
Depois do clique, o pedido entra em uma cadeia física que precisa começar a andar no mesmo dia.
A separação busca o item na prateleira e a conferência checa se o produto certo entrou na caixa. A expedição fecha o volume, emite a etiqueta e passa a encomenda à transportadora. Cada etapa consome tempo e pessoas, e uma transmissão ao vivo empurra tudo para uma janela curta.
Uma live concentra em poucas horas o volume de pedidos que a marca costuma receber ao longo de vários dias. Os pedidos vindos das compras pelas redes sociais chegam assim, agrupados, e testam estoque, equipe e espaço de uma só vez.
Matheus Anselmo é fundador e CEO da LOG18K logística, empresa de fulfillment, serviço que armazena, separa e despacha os pedidos de marcas que vendem pela internet.
“Marketing gera vendas, mas é a logística que determina se aquele cliente vai voltar a comprar. Quando o pedido nasce de um vídeo ou de uma transmissão ao vivo, a expectativa de quem comprou já está lá em cima antes mesmo de a separação começar.”, afirma Anselmo.
“Empresas que enviavam poucos pedidos por dia passam a movimentar centenas ou milhares de uma hora para outra. Quando a operação não acompanha esse salto, aparecem atraso, erro de envio e retrabalho, e o consumidor associa isso à marca, não ao canal.”, diz o fundador.
O território dessa engrenagem são as marcas digitais que vendem direto ao consumidor, sem loja física e sem intermediário. Para o executivo, o custo de um pico mal absorvido aparece na próxima compra que o cliente decide não fazer.
Frete e prazo ainda derrubam parte das compras
Frete e prazo funcionam como filtro final, mesmo quando o vídeo já convenceu o consumidor a comprar.
A pesquisa da Opinion Box com a Influency.me ouviu consumidores digitais em todo o território nacional. O estudo, publicado pelo E-Commerce Brasil, mede o que faz alguém desistir no último passo. Os motivos citados se concentram no custo da entrega e na reputação de quem vende.
Os resultados divulgados na reportagem sobre redes sociais, influenciadores e compras digitais apontam onde a compra se perde:
- Desistem da compra pelo valor do frete: 47%
- Desistem por avaliações negativas: 51%
- Compraram após indicação de um influenciador: 69%
O mesmo consumidor que compra por impulso dentro do aplicativo abandona o carrinho na etapa da entrega. Por isso, parte das compras pelas redes sociais se perde depois do clique, em um ponto que a comunicação da marca não alcança sozinha.
O que muda para quem compra longe dos grandes centros
Quem mora longe dos grandes centros de distribuição sente cada atraso da cadeia de forma amplificada.
O pedido feito em Itamaraju percorre uma distância maior até chegar ao Extremo Sul da Bahia. Cada hora perdida na separação se soma ao tempo de estrada até a Costa do Descobrimento. O prazo que aparece na tela depende menos do clique e mais do que acontece no depósito.
O mercado digital brasileiro cresce acima da média mundial e é majoritariamente móvel, segundo levantamento da FTI Consulting publicado em reportagem sobre consumo e redes sociais.
O celular na mão do morador do interior é o mesmo da pessoa que mora na capital, mas o caminho da encomenda não é.
Para o consumidor da região, alguns sinais ajudam a antecipar a experiência de entrega antes de fechar o pedido:
- Origem do envio informada pelo vendedor
- Prazo estimado até a cidade de destino, e não apenas até a capital
- Política de troca e devolução descrita antes do pagamento
- Avaliações recentes que falem de prazo, e não apenas do produto
As compras pelas redes sociais já fazem parte da rotina de quem vive no interior do país. A engrenagem que sustenta esse comércio, invisível para quem aperta o botão, é o que separa uma entrega tranquila de uma espera frustrante.
