A propósito do centenário de nascimento do líder cubano celebrado no último dia 13

No dia 15 de março de 1987, a bordo de um avião Bandeirante, um pequeno grupo de jornalistas e políticos acompanhou Abreu Sodré, então ministro das Relações Exteriores, na primeira viagem a Cuba após o reatamento das relações. A visita revelou Fidel Castro não apenas como líder, mas como anfitrião que, entre jantares e confidências, deixou marcas que perduram.
Entre os que viajaram estavam Aécio Neves (PMDB) e Roberto D’Ávila (PDT), além de jornalistas como Boris Casoy, Luiz Recena, Carlos Chagas e Beatriz Tilman. A comitiva ficou cinco dias em Havana, e Fidel tratou Sodré como “Comandante”, revelando o fascínio que o cerca até hoje. A cena era de calor humano, humor e uma curiosa intimidade entre os dois mundos.
Um episódio marcou o passeio: Fidel levou Sodré a ver um gado próximo, e o ministro comentando sobre uma suposta vaca. Fidel corrigiu com jeitinho: era um boi. Em seguida, ao redor da mesa do Palácio da Revolução, jantaram cascatas de lagostas e camarões, acompanhados de licores e café. Quando chegou a entrevista, Fidel parecia ter respostas prontas para tudo, mas acabou sendo magnético na revelação de uma curiosa receita de lagosta, que ele descreveu em três passos. A explicação, narrada pelo repórter, ficou conhecida por sua simplicidade e elegância culinária:
1. O pré-cozimento exato
Coloque a lagosta inteira em água fervente com sal; tempo: exatamente 2 a 3 minutos. Este passo firma a carne, facilita a retirada da casca e mantém o interior quase cru e suculento.
2. O corte e a limpeza
Retire a lagosta da água, passe-a rapidamente por água fria; divida a cauda no sentido do comprimento e remova a veia escura.
3. O toque final (grelhada na manteiga)
Derreta manteiga com alho em frigideira quente e grelhe os pedaços por 2–3 minutos, apenas até dourarem levemente. Fidel dizia que temperos fortes ou cítricos arruinam o sabor delicado da lagosta.
Essa receita ficou marcada pela genialidade prática de Fidel, um traço que muitos lembram até hoje. Em 2014, uma foto minha ao lado dele, publicada neste blog, gerou controvérsia entre leitores que me acusaram de simpatia pelo regime cubano; anos depois, a imagem reapareceu com outra interpretação nas redes.
Entre 2018 e 2020, a foto voltou a circular, associada a outra pessoa. Um dia, o ministro Marco Aurélio Mello ligou para esclarecer que a imagem era minha, Noblat, e não dele. O episódio mostra como memórias visuais podem ganhar leituras diferentes ao longo do tempo.
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