O linchamento de um jovem com certo grau de deficiência no Rio de Janeiro expõe a erosão da civilidade e a urgência de punição exemplar da covardia de justiceiros. O assassinato de Cláudio Rafael Landeiro, por seguranças clandestinos e entregadores, não é apenas um crime brutal: trata-se de sintoma de um país doente.
O crime encontra guarida em narrativas de autoridades e candidatos escorados em soluções baseadas em bravatas, como se o método boquirroto curasse a violência. Basta do absurdo de terceirizar segurança a grupos sem preparo, sem autorização e sem limites, como se viu nas pauladas, chutes e socos contra a vítima desorientada.
A morte de Cláudio expõe o erro de julgamentos instantâneos, alimentados por suspeitas infundadas e pela crença de qualquer cidadão poder virar autoridade. O linchamento, registrado por câmeras, mostra a ausência de tentativa de diálogo, mediação ou proteção: houve execução por parte da horda babando de ódio.
Difícil imaginar e impossível descrever a dor e o sofrimento de alguém incapaz de se defender e explicar estar guiando a bicicleta emprestada por sua irmã. E mesmo se fosse um ladrão, não estão autorizados os milicianos a tirar a vida de ninguém, tampouco agir como policiais, pois de fato atuam informalmente.
Estivessem o Judiciário e a delegacia em condições de ombrear-se à excelência da legislação vigente, também os comerciantes contratantes teriam de responder. O pior de tudo é constatar a transcendência do fato, pois em vez de episódio isolado, a tipificação corresponde a ocorrências similares e frequentes.
Senão neste exato instante, provavelmente no próximo programa sensacionalista, uma nova barbárie servirá de péssimo exemplo de insanidade a ser copiado.
E assim, o incessante pêndulo entre os pólos da notícia e da realidade vai incentivando as bestas sedentas de sangue a criar meios de fazer do Brasil o país da violência. A sirene de alerta toca alto: quando o Estado falha e a cidadania se omite, o tribunal da rua decide quem vive e quem deve morrer.