Uma tragédia marcante: a cidade de Pojuca, referida como “criança-prodígio” desde o século XVI, viveu um dos episódios mais tristes da sua história em 31 de agosto de 1983, quando um incêndio atingiu seus moradores, deixando um saldo trágico de quase 100 mortes.
Fundada por povos pataxós, a cidade prosperou através da agricultura e, mais tarde, do petróleo, sendo conhecida como a “Princesinha do petróleo da Bahia”. No entanto, a tragédia de 1983 interrompeu essa trajetória de forma brutal.
O fatídico dia começou como uma manhã comum até que um trem da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA), carregado de gasolina e óleo diesel, descarrilou. Por volta das 7h30, moradores da Rua da Piedade acordaram com o estrondo do acidente, que envolveu uma locomotiva e 22 vagões-tanque.
Com 135 mil litros de combustíveis nos vagões, moradores atraídos pela oportunidade de coletar gasolina para venda se aglomeraram no local. Como relata o professor João Batista em seu livro, a curiosidade da comunidade rapidamente virou um cenário de tragédia.
Apesar das advertências sobre os perigos, poucos se lembravam da gravidade da situação. À medida que mais pessoas chegavam, começava a se desenhar uma catástrofe. A falta de segurança e a negligência das autoridades contribuíram para o que se tornaria a 5ª maior tragédia ferroviária do Brasil.
Noite de terror
A situação se deteriorou rapidamente. Por volta das 20h30, um incêndio se espalhou pela Rua da Piedade e pelas 12 casas ao redor, consumindo tudo em seu caminho. Relatos indicam que 34 pessoas morreram carbonizadas enquanto tentavam escapar, enquanto outras foram queimadas mesmo após se livrarem de suas roupas.
Sobreviventes como Laudemilson Cardoso Araújo, que na época tinha apenas 18 anos, relatam cicatrizes emocionais e físicas profundas deixadas pela tragédia. Ele sobreviveu a queimaduras que atingiram 85% do seu corpo, perseverando durante um mês em tratamento intensivo, quando médicos chegaram a duvidar de sua sobrevivência.
Marcas de fogo
Laudemilson relembra a explosão que mudou sua vida e a dor que carregará para sempre. Após o acidente, 179 pessoas foram atendidas no Hospital Getúlio Vargas, mas muitos ficaram sem assistência suficientemente efetiva, levando a mais perdas.
A negligência e a falta de manutenção nas linhas ferroviárias da RFFSA foram atribuídas como causas fundamentais do acidente, com a investigação revelando uma cultura de descaso pelas normas de segurança.
Tragédia com culpados, mas sem condenados
As investigações iniciais culparam a engenheira Zuleide Rêgo Lessa, mas a RFFSA resistiu a assumir a totalidade da responsabilidade. Mais de 43 anos depois, as vítimas e seus familiares ainda lutam por justiça, muitas vezes recebendo indenizações consideradas irrisórias.
As histórias do dia 31 de agosto de 1983 permanecem vivas na memória coletiva de Pojuca. Para muitos, é um lembrete sombrio da importância da segurança e da responsabilidade das autoridades.
O professor João Batista sublinha a necessidade de respeitar a memória das vítimas e assegurar que incidentes semelhantes não voltem a ocorrer. “Nós precisamos trabalhar para que a negligência não se sobreponha mais às vidas humanas,” conclui.