A eleição da desesperança (por Hubert Alquéres)

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O brasileiro não está necessariamente indiferente à política. Ele pode estar cansado de esperar

Fotos: HUGO BARRETO / METRÓPOLES @hugobarretophoto
Urna Eletrônica; política

A eleição presidencial adentrou na casa dos brasileiros com o início da campanha na televisão, na internet e nas rádios. As sabatinas da TV Globo serviram para apresentar aos brasileiros os presidenciáveis, embora a maioria deles seja figurinha carimbada de outros carnavais. Ou melhor, de outras campanhas. Se entrou nos lares do Brasil, a eleição não encantou. Ao contrário, predomina um clima de apatia, desencanto e exaustão.

Poucas eleições presidenciais desde 1989 começaram com tamanho clima de desencanto. Naquele ano, o Brasil se reencontrou com a democracia e voltamos a eleger o presidente da República pelo voto direto e secreto. De lá para cá, tivemos momentos culminantes da afirmação, pelo voto, da soberania popular e de esperanças que se tornaram realidade, como o fim da inflação crônica e a construção de uma rede de proteção social. A grande diferença da corrida eleitoral atual é o baixo-astral e a desesperança.

Não se pode atribuir este fenômeno apenas ao mau humor dos brasileiros face ao endividamento de suas famílias. Há também a descrença de boa parte da população nas instituições e no próprio sistema representativo. Esses fenômenos têm aparecido em pesquisas que buscam entender a cabeça do eleitor que vai às urnas, e chama a atenção o descrédito com os três Poderes da República e a insatisfação com um Estado que arrecada muito e entrega à população serviços públicos de baixa qualidade.

Tudo isso é verdade, mas há um fator peculiar mais visível, constatado por diversos analistas. O país cansou da polarização que dividiu os brasileiros praticamente ao meio e instalou entre nós um clima de guerra permanente. Assim foi nas duas últimas eleições presidenciais e volta a repetir-se agora.

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Essa é a eleição da rejeição. O voto não é definido por propostas para o futuro, mas por um sentimento punitivista, de um lado punir o outro. Entre as duas bolhas, há um oceano de eleitores que não se identificam com nenhum dos campos ideológicos, mas são atraídos para um dos polos pela força da inércia.

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Em 2022, os riscos para a democracia representados pela reeleição de Bolsonaro levaram parte ponderável do eleitor independente e de centro a votar em Lula, ainda que o atual presidente não apresentasse nenhuma perspectiva de futuro e fosse mais do mesmo. Mas e agora? O voto vai ser definido por fantasmas do passado?

O Brasil pagou um preço imenso por uma polarização que já deu o que tinha de dar. Seu resultado mais deletério foi a desestruturação do amplo campo político que não se situava em um dos dois extremos, estabelecendo uma realidade binária esquerda-direita no cenário político nacional.

Lula e Flávio Bolsonaro representam, cada um a seu modo, a continuidade de uma polarização que já esgotou boa parte da sociedade. E, no meio, não apareceram alternativas capazes de se diferenciar e de romper as grades da jaula da polarização na qual os brasileiros estão aprisionados. No campo da direita mais moderada, seus candidatos continuam reféns da mentalidade do bolsonarismo, sem conseguir se diferenciar. E, no campo da esquerda, é Lula ou Lula.

Esse é o ponto. A polarização mobiliza militantes, mas tende a afastar o eleitor que não se identifica integralmente com nenhum dos polos. Numa eleição ditada pelo passadismo que não oferece esperanças para o futuro, esse contingente eleitoral pode simplesmente se abster ou anular o voto por sentir que nada muda em sua vida se ganhar um ou outro.

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A ausência de um centro democrático orgânico abre espaço para outsiders, pois em política o espaço vazio, mais cedo do que se pensa, é preenchido por novos atores. A rápida visibilidade conquistada pela candidatura de Augusto Cury é um indício desse fenômeno. Em algumas pesquisas, já apareceu com dois dígitos na intenção de votos e em terceiro lugar.

Seria, portanto, uma leitura equivocada atribuir ao desinteresse pela política uma postura abstencionista do eleitor com esse perfil. Ela decorre da crise de alternativas aos dois polos existentes. Talvez o eleitor esteja menos decepcionado com a democracia do que desesperançado com as opções tradicionais que a política lhe oferece. Se os candidatos parecem representar apenas variações do passado, a eleição deixa de ser percebida como uma escolha de futuro.

O brasileiro não está necessariamente indiferente à política. Ele pode estar cansado de esperar. A esperança de que uma eleição produza uma grande mudança foi substituída pela expectativa de que o próximo governo apenas administre problemas que parecem insolúveis e perpetue o passado.

A desesperança não é, portanto, consequência da demanda. O eleitor quer ter esperança. O problema está na oferta. Está na falta de candidatos com mensagem capaz de fazer despertar nos brasileiros o sentimento de que o futuro pode ser diferente do presente.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação. 

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