Ribeirão do Onça, em Belo Horizonte, promove festival para destacar a recuperação da cachoeira após décadas de poluição

Belo Horizonte – Localizada em meio a um cenário de pedras e areias claras, a cachoeira do Ribeirão do Onça, que chega a 31 metros de altura, foi um ponto de lazer para moradores da Região Norte de Belo Horizonte. No entanto, a poluição causada por esgoto e lixo ao longo das décadas transformou o local em um espaço afastado da população.
Para reverter essa situação e promover o reencontro da comunidade com o local, neste sábado (12/9), o Festival da Onça irá reunir moradores, artistas e movimentos sociais em um evento no mirante da cachoeira, enfatizando a necessidade de ações de despoluição.
O Ribeirão do Onça abrange uma bacia de aproximadamente 212 km², com um curso de 38 km que se estende por Contagem e Belo Horizonte, desaguando no Rio das Velhas.
“Esta cachoeira pode se tornar um importante cartão-postal da cidade, assim como a Serra do Curral e a Lagoa da Pampulha,” afirma o professor Roberto Andrés, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenador do projeto de extensão que promove o festival.
O Onça de 50 anos atrás
A professora Sonia de Santos França, moradora da região há 50 anos, recorda um tempo em que a área era muito mais preservada, com ricas nascentes e poucos moradores. “Naquela época, havia várias fazendas e eu atravessava a cachoeira por uma trilha para comprar leite,” relembra.
Segundo ela, as preocupações eram com os perigos naturais, não com a poluição. Fotografias antigas mostram a vivência e a interação da comunidade com o ribeirão.
Do crescimento urbano à poluição
A degradação do Ribeirão do Onça é resultado do crescimento urbano desordenado e da falta de infraestrutura, principalmente em relação ao saneamento básico. “Sem controle ambiental, empresas jogaram resíduos diretamente no rio, causando um cheiro insuportável,” relata a professora.
“As nascentes secaram devido à falta de fiscalização e controle ambiental,” complementa.
Roberto Andrés destaca que o principal problema é a ausência de sistema adequado de coleta de esgoto, que agrava a situação e afeta a saúde da população.
Os impactos vão além da poluição da água, afetando também as áreas verdes e as opções de lazer na região.
Mudanças às margens do ribeirão
Movimentos sociais começaram a se organizar na luta pela preservação do Ribeirão do Onça, com destaque para a criação do Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (Comupra) em 2001, que promoveu a conscientização da comunidade com o lema “Nadar, Pescar e Brincar”.
A mobilização permitiu a recuperação de nascentes e a remoção de famílias de áreas vulneráveis, oferecendo dignidade e segurança.
Além disso, iniciativas como a criação do Parque Ciliar Comunitário do Onça visam transformar áreas em espaços de lazer ao longo do ribeirão.
Poluição continua
Apesar das melhorias, a qualidade da água do ribeirão permanece comprometida. O Comupra e outras organizações têm como meta garantir a recuperação até 2025, mas os desafios persistem.
Roberto Andrés critica a lentidão das ações da companhia de saneamento para resolver os problemas e ressalta a importância de investimentos para solucionar a questão do esgoto.
A cultura como ferramenta de mudança
O Festival da Onça, criado em 2023, se propõe a unir a comunidade por meio da cultura e do lazer, com o objetivo de revitalizar a região. Neste ano, o festival contará com uma programação diversificada, incluindo artistas locais.
Para a coordenadora Débora Tavares, a cultura é uma forma de mobilizar a comunidade e fazer com que as autoridades tomem boas ações. “Ao destacar a região, podemos pressionar por melhorias de infraestrutura,” conclui.
A reportagem tentou contato com a Prefeitura e a Copasa, mas aguarda um posicionamento.