Tribuna da Imprensa — 17/5/1952

Deitado na rede do alpendre, tenho sob os olhos, através do campo aberto, a cidade de Campo Maior; e enquanto, de longe, vou adivinhando as vidas sob os telhados, ouço o amigo da adolescência. Chama-se Clemente; e na verdade nunca houve, no mundo, Clemente como este. Com um blusão aberto (que a meu ver adotou como uniforme diário porque, embora de linho, lhe recorda a camisa por fora das calças que os caboclos usam), ele não para um minuto, numa agitação sem termo que a própria rede não consegue quebrar.
Somos amigos há mais de vinte anos, tinha eu quatorze. Juntos fizemos a habitual revista ginasiana, com clichês em madeira e muita ênfase. Não tardou muito Clemente ia para Belém, onde teve uma paixão inconfessada e alucinatória pela poetisa local, que então era possível ao estudante desocupado contemplar, em repetidas idas e vindas pela frente da casa em cujo jardim Eneida em flor lia, envolta em pijamas de seda. Eu caminhei para o Rio, onde minhas aventuras foram pobres e poucas. Mais de dois lustres depois, quando voltei ao vale do Parnaíba, encontramo-nos de novo; éramos os mesmos amigos de sempre.
Agora, deitado na rede de tucum, ouço as história que Clemente me conta. Com paixão. Paixão que aliás não vai durar muito, se dissipa no primeiro impulso generoso. Sempre o vi assim, desde o dia em que em nossa tentativa jornalística de 1929 pegou numa barra de ferro para matar o paginador que manchara uma das páginas mais belas da revista em forma de taça, imaginem! Meia hora depois estavam os dois, fraternos, tomando cerveja.
Na plenitude da vida e da ação, Clemente é hoje um dos homens típicos desta terra. Teve, na sua fazenda, a chocadeira mais moderna, a mais moderna criadeira. Mas se convenceu de que para chocar pintos não há nada que se equipare à perua, cujo dedo do pé se amarra para trás durante uma semana: a estúpida ave se convence de que está choca e é só deitá-la no ninho, de cinquenta ovos não gora um só. E para criar não há nada que se compare ao capão gordo, do qual se arrancam as penas do peito e no local depenado de passa iodo: o bicho assexuado se convence de que é galinha e passa a criar os pintos, deliciado com a coceira das bicadas dos filhotes, e com que amor os guia!
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Se assim nesses pontos recuou do moderno, noutros o aceitou. Ainda o ano passado, enquanto muitos erguiam as mãos ao céu pedindo chuva, Clemente declarou:
— Vou lá esperar pela vontade de Deus!
E contratou um trator, e em sete dias e sete noites de trabalho, montado ao lado dos motoristas que se revezavam, abriu um açude. Julgava estar blasfemando, estava cumprindo a vontade de Deus, que manda que o homem trabalhe.
Da última vez que andei por estas bandas, se estabelecera entre Clemente e as autoridades sanitárias (ele era delegado) um conflito. O Serviço da Febre Amarela queria enterrar os mortos das fazendas, vinte léguas em redor, no cemitério da cidade. Argumentava com a lei. E o delegado, resistindo:
— Que lei nem meia lei, senhor. Uma lei que só se lembra do caboclo depois de morto!
O pior não era o dinheiro que os caboclos gastariam para enterrar seus mortos em caixão, em vez de rede, e com as bênçãos da igreja e o apoio do registro civil. O pior era o enfermeiro da Febre Amarela arrancar um pedaço das vísceras para exame. Dessa profanação é que os pobres tinham horror, um horror misto de medo e revolta. Parecia sacrilégio.
O enfermeiro insistia. Era preciso saber de que morria tanta gente, para evitar epidemias. E Clemente, com grandeza:
— Mas isso eu posso lhe dizer. O povo está morrendo é de fome.
Odylo Costa, filho