Em diferentes regiões do país, estabelecimentos incorporam o gênero à programação e conectam música, cultura e experiência
O reggae deixou de ocupar apenas o espaço da música e, em algumas regiões do Brasil, passou a fazer parte da identidade cultural e da programação de bares e restaurantes. A relação é especialmente forte no Maranhão e no Pará, mas também aparece em outros mercados, como Belo Horizonte, onde estabelecimentos utilizam o gênero para criar experiências e se aproximar da cena cultural local.
Em São Luís, no Maranhão, o reggae chegou na década de 1970 e foi incorporado à cultura da cidade, sobretudo nas periferias. O gênero desenvolveu características próprias na capital, entre elas a dança a dois, conhecida como “agarradinho”. Em 2023, São Luís recebeu oficialmente o título de Capital Nacional do Reggae.
A influência também se espalhou pelo Pará, favorecida pela proximidade histórica com o Maranhão. Discos de vinil, DJs, equipes e radiolas ajudaram a consolidar a presença do gênero na região. Em Belém, o Festival ‘Tributo a Bob Marley’, realizado anualmente, reúne DJs, colecionadores, artistas e representantes da cultura reggae de diferentes estados.
Música também influencia a identidade dos estabelecimentos
A relação do reggae com a cultura paraense também pode ser encontrada em bares e restaurantes. Na praia de água doce Pindobal, em Belterra/PA, o Bar do Reggae Pindobal incorporou o gênero à proposta do negócio.
Com pouco mais de um ano de funcionamento, o estabelecimento surgiu depois de uma viagem do proprietário, Janderson Batista, à Jamaica. A experiência no país caribenho serviu de referência para a criação do bar, que buscou levar elementos da cultura jamaicana para a realidade paraense.
“Eu viajei para a Jamaica e tive uma experiência muito positiva, que me motivou a criar um projeto parecido com alguns que eu visitei em Kingston. Também fui a Negril, estive em vários lugares lá que me deram muitas referências para abrir meu próprio negócio”, conta o proprietário.
A influência aparece na decoração, nos uniformes da equipe e na programação musical. O estabelecimento funciona de quinta a domingo e reserva o último dia do fim de semana para shows ao vivo de reggae. Outros estilos também entram na programação de acordo com a demanda do público.
A identidade musical é acompanhada por um cardápio que combina petiscos com ingredientes e preparos associados à região Norte. Entre as opções estão camarão, tacos de peixe, macaxeira e açaí com camarão. O bar também oferece cervejas tradicionais e artesanais, além de drinks alcoólicos e não alcoólicos.
A localização contribui para ampliar o público. Instalado à beira da praia, o estabelecimento recebe moradores e turistas hospedados em pousadas e resorts próximos. Segundo Janderson, pessoas de diferentes faixas etárias procuram o espaço em busca de uma alternativa à oferta tradicional.
“Nosso bar é aberto a todos os públicos. O que a gente percebe é que a maioria das pessoas que vem aqui buscam experimentar nossos drinks locais. É uma galera que gosta mais de uma cena alternativa, que não quer vir num lugar e encher a barriga de feijão com arroz. Ela vem tomar uma cervejinha, tomar um drink, pedir um petisco, uma batata frita, um camarãozinho”, conta Janderson.
Em Belo Horizonte, gênero divide espaço com outros estilos
A presença do reggae em estabelecimentos de alimentação e entretenimento também aparece em Belo Horizonte, mas com uma proposta diferente. Na Casa Floreana, que tem três anos de mercado, o gênero divide espaço com outras vertentes musicais, como brega, black music e groove.
O reggae não é o único elemento da identidade do estabelecimento, mas tem presença fixa na programação, com pelo menos uma noite por mês dedicada à música jamaicana.
Para o sócio Gabriel Assad, a escolha tem relação também com sua trajetória pessoal. Músico ligado à música jamaicana há cerca de duas décadas, ele mantém trabalhos relacionados ao ska e ao reggae. Essa relação influenciou a decisão de reservar espaço para o gênero na agenda da casa.
A Casa Floreana também mantém uma ligação com a cena musical local por meio da banda Bond do Dub, que utiliza a estrutura do estabelecimento para desenvolver seu trabalho.
Nas noites dedicadas ao reggae, a programação combina DJs e apresentações ao vivo. O espaço também incorpora elementos visuais associados ao gênero, mas sem transformar permanentemente o estabelecimento em uma casa temática.
Manter programação exige equilíbrio entre cultura e negócio
Para os estabelecimentos que apostam em uma programação musical específica, a afinidade com determinado gênero é apenas parte da equação. Os custos de operação e a capacidade de atrair público também influenciam a frequência dos eventos.
Em Belo Horizonte, Gabriel avalia que o reggae ainda encontra dificuldades para ocupar espaços privados. Na visão dele, o gênero ficou muito associado às ruas e perdeu parte da presença que já teve na cena noturna da cidade.
O empresário também aponta uma questão econômica. Segundo ele, existe a percepção de que parte do público do reggae consome menos no bar e demonstra menor disposição para pagar ingressos mais caros. Para estabelecimentos que precisam equilibrar despesas com operação, equipe e atrações, esse comportamento interfere na frequência com que eventos do gênero podem ser realizados.
Mesmo diante desse cenário, a Casa Floreana mantém a noite mensal dedicada ao reggae. A escolha busca conciliar a sustentabilidade do negócio com a manutenção de um espaço para artistas e iniciativas ligadas à cena cultural.
Os dois estabelecimentos mostram caminhos diferentes para incorporar a música à experiência oferecida ao público. Em Pindobal, o reggae está diretamente ligado ao conceito do bar, à experiência do proprietário na Jamaica e ao turismo da região. Em Belo Horizonte, o gênero integra uma programação mais ampla e funciona como uma das formas de conexão do estabelecimento com a cena musical local.
Em ambos os casos, a música ultrapassa a função de trilha sonora e participa da construção da experiência do consumidor. Para bares e restaurantes, a escolha de uma identidade musical pode aproximar o negócio de determinados públicos e criar uma relação mais forte entre cultura, entretenimento e consumo.