Caso Caio Castro: dinheiro é poder e, quem paga manda

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Nesta semana, eu não achava que alguma coisa pudesse chamar mais a minha atenção do que a celeuma da mudança do Carnaval de Salvador da Barra para a Boca do Rio. Porém, teve a declaração da OMS de que a monkeypox é emergência mundial e aí, sim, nada mais surgiria. Engano meu. Apareceram com um vídeo no qual o ator Caio Castro faz a trivial declaração de que não gosta de se sentir obrigado a pagar conta pra mulher. Tranquilo, né? Contemporâneo. Não. Foi ele dizer isso e mundo se acabou em asneiras.  Enfim, “cancelaram” a criatura porque “homem que é homem” banca. É brincadeira?

(Eu acho tão ridículo usar o verbo “cancelar”, nesse sentido, com qualquer nível de seriedade, que aspeio.)

Enfim, tive que assistir o bendito vídeo. Achei zero importante. Fazendo um esforço pra valorizar a tal “polêmica”, vi só um cara, aparentemente saudável, que não parece perceber dinheiro como uma extensão do próprio pênis. Não conheço Caio Castro. Ele pode ser um babaca, até. Sei nada da vida dele. Mas o que aquele homem faz ALI, naquele vídeo, é, exatamente, falar de mulheres como seres humanos que somos. Acharia perfeito se todos nos vissem assim, mas esse continua sendo um sonho distante, por vários motivos. Entre eles, o apego feminino – explícito nesse episódio – ao lugar de “Cinderela”, “bonequinha”, “objeto”, “bem de consumo”. O que eu sei é que o vexame foi horrível.

(Estou generalizando? Não. Nenhuma amiga próxima a mim, por exemplo, manifestou descontentamento com o fato de o cara não se sentir obrigado a pagar contas de mulheres. Das duas, uma: estavam ocupadas com outras coisas ou já passaram da fase “mulher é pra ser tratada como princesa”.)

(À qual só retorno pelo motivo de que meu trabalho, aqui, é comentar as coisas mesmo.)

Evidentemente, cada pessoa responde por si, e só a compreensão profunda disso me salva de certos sofrimentos. Sem saber “o que é meu e o que é do outro”, eu teria chorado pela desonestidade de mulheres dizendo que o ator “acha que pagar a conta de um jantar é sustentar mulher”, por exemplo. Ele não disse isso não. Depois, enrubesceria de vergonha por causa do discurso de que “mulher é algo caro”, que “tem quem pode”. Em terceiro lugar, eu teria cavado um buraco no chão pra enfiar a cabeça ao ler, várias vezes, que “mulher se arrumar custa caríssimo”. Por último, talvez gritasse de raiva, ao perceber que ainda não se faz a menor distinção entre gentileza e cavalheirismo. Felizmente, portanto, não sinto “vergonha alheia”. Então, estou bem. Obrigada. 

A vergonha horrorosa que eu sentiria, explico. Pulando a primeira questão, claro, porque basta voltar lá, assistir o vídeo e ver o que foi dito e o que não foi dito. Também porque “defender” o ator me interessa pouquíssimo. Nem ele precisa. Mas a construção do pensamento feminino, a parte dele que vi exposta nesse episódio, me preocupa muitíssimo. Precisamente, porque achei que já estávamos mais adiante, que já havíamos conquistado determinados espaços internos, coletivamente. Mas, parece que não.

Pense comigo: em nossa estrutura social, dinheiro é poder e, quem paga manda. Você concordando ou não, achando bonito ou feio, na prática, é assim e estamos carecas de saber. Então, por que mulheres insistem no fetiche do “homem que banca”? Sim, porque é um fetiche e não estou falando de arranjos depois de postos os relacionamentos nem sobre tratos de confiança dentro da intimidade amorosa. Foi a idealização do “primeiro encontro” que provocou a polêmica, o comportamento padrão, lugares sociais de macho e fêmea humanos no ritual de sedução e acasalamento.

Bom, se “quem paga manda”, o “homem que banca” tá no controle, evidentemente, por mais que a mulher encene “empoderamento”. Capital, minha gente. Dinheiro investido. Percebe? Então, o desejo pelo “homem que banca” é, ainda, desejo de submissão? Tá, cada pessoa tem direito aos próprios desejos. Só que, coletivamente, acho preocupante. Não é preciso ser muito inteligente pra entender que o pacote é completo e inclui, lá no fim das contas, até nossos números de feminicídios. Junte os pontinhos. Não dá pra ser objeto e sujeito, ao mesmo tempo, na mesma relação.

Aqui, a banda toca de outro jeito. Eu, pessoalmente, analiso bastante um homem, antes de PERMITIR que ele pague uma conta minha. Porque isso, em minha opinião, é dar MUITA ousadia. Difícil ser numa primeira saidinha. Um semidesconhecido não tem moral pra pagar meus drinques. Vou aonde posso pagar, mesmo que seja o pior boteco da esquina. Problema nenhum. INSISTO em dividir a conta (também não pago a dele) e sei que isso já é cartão de visita. Tá lá a dica pro cabra: “não vem que não tem, baby”. Ou “me respeite”. Funciona, sabia?

Não sou cara nem barata. Sou de graça mesmo. Não sou uma coisa. Eu sou uma PESSOA e ninguém precisa pagar NADA para estar comigo, a não ser em encontros profissionais. Como meu trabalho é escrever – e não transar (nada contra as profissionais, mas não é meu caso) – as pessoas que querem meu texto pagam. As que querem sexo, por exemplo, precisam seduzir e sedução, pra mim, não inclui dinheiro. Cada pessoa do próprio jeito, mas, pra mim, intimidade financeira – essa que permite determinados “convites”, que alguém me “banque” ou o inverso, ou o “quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos” – se conquista é com tempo. Tenho com amigos/as e, sim, já tive com namorados e maridos.

Também não vejo graça em “cavalheirismo” que é machismo traduzido em etiqueta tão cafona quanto levantar o dedo mínimo ao segurar a xícara. Fico sempre constrangida com “cavalheiros” que me fazem sentir numa novela de época, incapaz de fazer várias coisas corriqueiras. Gentileza que é lindo, sobretudo quando mútua. Quem vai dirigir o carro, abre a porta pro outro. Aí, quem entra primeiro, abre – por dentro – a porta do motorista. Faço isso com todo mundo, inclusive namorados e maridos. Quem chega primeiro na porta, abre e espera o outro passar. Sacolas são divididas, assim como ou outros pesos e alegrias da vida. Isso é civilizado e independe de gênero ou relação de qualquer categoria.

Agora, se para estar arrumada a mulher gasta mais do que poderia porque sai com homens que “exigem” algum tipo de “arrumação específica”, é até certo que precise de algum reembolso. Compreendo. É que esse argumento também foi usado: “eles exigem que a gente se arrume, então devem pagar as contas”. Eles o quê? Exigem? De mim, nenhum nunca “exigiu” ou, se tentou, não percebi. No caso de uma existência atenta a esse tipo de “exigência”, sugiro terapia. Sai mais barato e o efeito dura mais do que maquiagem, botox ou ácido hialurônico. Talvez, por toda a vida.