Os yanomamis estão escondidos na floresta

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Cadê os yanomamis? A pergunta que invadiu a time line de milhares de pessoas nas redes sociais, mobilizando ativistas e celebridades internacionais nos últimos sete dias parece finalmente ter sido respondida. Em depoimento à Polícia Federal na quinta (5), o líder indígena Júnior Hekurari afirmou que os cerca de 24 índios dados como desaparecidos após confronto com garimpeiros na comunidade Aracaçá, em Roraima, foram localizados no interior da floresta, em outra área dentro do território Yanomami. Um outro  grupo se encontra na região de Palimiú, também na reserva. 

A localização dos índios desaparecidos no final de abril, contudo, é insuficiente para fechar o caso que,  embora resumido em uma única questão, exige muitas respostas para solucionar grave problema que envolve a posse e o uso de terras, proteção da floresta e mesmo a existência de um povo.  O desaparecimento dos indígenas em Aracaçá é, até aqui, o capítulo mais dramático de uma série de recentes episódios de escalada de violência naquela área, alvo de ação de garimpeiros. 

No final de abril, uma força tarefa formada por agentes da Polícia Federal e por funcionários da Fundação Nacional do Índio e do Instituto Brasileiro (Funai) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) adentrou aquele território para investigar a denúncia feita pelo próprio Júnior Hekurari, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kwana (Condisi-YY), de que garimpeiros teriam violentado e assassinado uma menina yanomami de 12 anos, e sequestrado uma índia e sua filha, uma criança que sumiu  após ser atirada no rio. Ao chegar à aldeia, a força tarefa não encontrou nenhum índio da comunidade, se deparando ainda com todas as casas queimadas.

Apesar do choque que o cenário e a gravidade das denúncias provocam, a PF afirmou  não ter visto indícios de crime. A conclusão foi divulgada em nota assinada pelo Ministério Público Federal, Funai e pela Secretaria Especial de Saúde Indígena. É um costume dos yanomamis mudar de moradia quando um dos seus morre. Na mudança, eles incineram as antigas residências. Segundo a Polícia Federal, o inquérito ainda segue em aberto e as denúncias de violência contra os índios continuam sendo  investigadas.

Embate
Mineração é uma atividade proibida em reservas indígenas. O território Yanomami em Roraima é legalmente reconhecido como reserva indígena desde 1992. A posse da área era disputada pelos indígenas e garimpeiros, sempre com violência por parte do segundo grupo, desde a década de 1970. Entre 1987 e 1990, centenas de pistas clandestinas para aviões foram abertas para escoar o ouro recolhido ali. No auge do garimpo na região, foi estimada a presença de 30 a 40 mil garimpeiros, cerca de cinco vezes a quantidade de índios que ali residiam. 

A corrida do ouro no território Yanomami diminui com a legalização da reserva. Mas ela ainda existe. 

E ganhou força nos últimos anos. O governo federal, com o próprio presidente Jair Bolsonaro à frente, tem defendido mudanças na legislação e projetos de lei nesse sentido tramitam no Congresso. Em apenas um ano – entre 2021 e 2020 – a área de floresta devastada pelos garimpos ilegais em toda a reserva, que inclui mais de 350 comunidades, cresceu 46%, um incremento de 1.038 hectares, ou cerca de 3 mil campos de futebol devastados, a maior taxa anual desde a demarcação há 30 anos. Em maio do ano passado, imagens de garimpeiros atirando contra yanomamis a partir de barcos ganharam o mundo ao serem publicadas e diversas postagens nas redes sociais da internet. 

Além de destruir a floresta, a presença dos garimpeiros leva doenças como gripe, malária, pneumonia e recentemente covid-19  à população indígena, despreparada para enfrenta-las. Mais de 60% das crianças yanomamis sofrem de desnutrição. O retrato ainda inclui o aliciamento de mulheres e meninas indígenas que acabam se prostituindo em troca de um prato de comida. As informações fazem parte do relatório Yanomami sob ataque – Garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami e Propostas para Combatê-lo, divulgado pela Hutukara Associação Yanomami. 

Crime que dá lucro
A solução para o lucrativo garimpo ilegal não é simples e exige recursos materiais e humanos que imponham a presença do Estado na região, garantindo o cumprimento das leis naquele território. O ouro é um dos ativos que mais se valorizam em todo o mundo. 

Na quinta (5), em Sorocaba (SP), a Polícia Federal apreendeu  77 quilos de ouro sem procedência comprovada. O valor da apreensão soma cerca de R$ 23 milhões. Seis pessoas que faziam o transporte foram detidas – quatro delas são policiais militares, um deles da reserva.

A aeronave que transportava a carga é do empresário Dirceu Frederico Sobrinho, conhecido como ‘Rei do Ouro’ e dono da empresa de ouro FD Gold. Filiado ao PSDB, ele concorreu como suplente de senador pelo Pará em 2018. 

Seu nome consta na agenda de encontro presenciais com membros do gabinete do presidente Jair Bolsonaro. Ele se reuniu com o vice-presidente Hamilton Mourão, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional General Heleno, e os ex-ministros da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e do Meio Ambiente, Ricardo Salles. No ano passado, o Ministério Público Federal pediu a suspensão da empresa de Sobrinho, acusada de despejar no mercado mais de uma tonelada de ouro extraído de garimpos ilegais da Amazônia.
com agências

Garimpeiro é preso 29 anos após chacina 

A Polícia Federal (PF) prendeu na noite da quinta (5), em Boa Vista (RR), o garimpeiro Eliézio Monteiro Neri, que foi condenado por envolvimento no genocídio de indígenas yanomami conhecido como “Massacre do Haximu” e estava foragido. Segundo a Polícia Federal, Neri foi abordado pela Polícia Militar quando estava em um supermercado. A corporação pediu o apoio para a realização da prisão após receber a informação de que o garimpeiro chegaria na capital de Roraima pela rodoviária.
A chacina ocorreu em 1993, quando garimpeiros que atuavam em região próxima à fronteira com a Venezuela assassinaram 16 yanomamis. Entre os mortos havia mulheres, adolescentes crianças e um bebê. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), o massacre chegou ao conhecimento das autoridades em agosto daquele ano, por meio de um bilhete escrito por uma freira que estava em missão na região.

A Procuradoria relata que, no dia 15 de julho daquele ano, sete garimpeiros chamaram seis indígenas para caçar e assassinaram quatro desses. Ainda de acordo com o MPF, em retaliação, os indígenas mataram um dos garimpeiros. Um mês depois, os garimpeiros invadiram uma área onde estavam integrantes da tribo e então mataram, a tiros e golpes de facão, 12 indígenas – um homem, duas idosas, uma mulher, três adolescentes, quatro crianças e um bebê.
O MPF denunciou 24 garimpeiros, sendo que apenas cinco estavam “plenamente identificados”. É, até hoje, o único caso reconhecido como genocídio pela Justiça brasileira.
 

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