De denunciante a alvo em 40 processos: quem é Vladimir Timerman, que acionou o STF em busca de proteção

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Dinheiro e Negócios

Autor de denúncias contra figurões, Timerman também tornou-se vidraça: acumula processos criminais por sua atuação no mercado financeiro

25/08/2026 15:24

, atualizado 25/08/2026 15:32

Agência Senado
De denunciante a alvo em 40 processos: quem é Vladimir Timerman, que acionou o STF em busca de proteção

Se de um lado o gestor Vladimir Timerman acumula admiradores pelas provocações e denúncias contra pesos-pesados do mercado financeiro, de outro empilha processos judiciais pela abordagem considerada truculenta por suas vítimas.

Primeiro a denunciar o Master, Timerman tem mais de 40 processos criminais por sua atuação heterodoxa no mundo do mercado financeiro. Os métodos sem filtro do gestor — que incluem xingamentos como “vagabundo”, “corno” e “bandido” nas redes — já rendeu a ele apelidos como “X9” e “anti-herói” da Faria Lima.

Com o avanço das investigações sobre irregularidades do Master, Timerman — que até então acumulava mais desafetos do que admiradores — passou a ser aplaudido. Mas, quem atravessou o caminho dele, se recusa a fazer coro aos elogios.

A coluna conversou com pessoas que foram objeto de denúncias feitas por Timerman e consultou os processos movidos contra ele. A reportagem também entrevistou o gestor (confira abaixo).

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“Ele é uma metralhadora giratória. Uma hora, quem atira a esmo, acerta o alvo. E ele está sendo aplaudido por isso. Mas ninguém fala de quem ele feriu no processo”, contou um dos alvos de Timerman.

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“Eu vou acabar com tua raça, tua mulher vai te largar e teus filhos vão ter vergonha de você.” A frase, postada por Timerman em uma rede social, foi dirigida ao advogado de um desafeto do gestor e faz parte de um imenso rol de publicações consideradas como “conteúdo e profundamente desrespeitoso” pela Justiça em uma das condenações contra o Timerman.

Além disso, em outra publicação, o gestor insinua que sabia onde a filha de um “rival” trabalhava. Timerman foi condenado, neste caso, pelo crime de perseguição (stalking). A pena, revista em decisão de maio deste ano, foi estabelecida em um ano, um mês e 15 dias de reclusão em regime aberto. O autor do processo foi o controverso investidor bilionário Nelson Tanure.

“Eu denunciei a maior organização da história do país. Minha agressividade é não abaixar a cabeça, é não ter medo desses caras. E eu vou continuar denunciando, vou continuar cobrando que os órgãos de controle façam o trabalho deles”, afirmou Vladimir Timerman ao Metrópoles.

De 2024 para cá, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) instaurou 23 inquéritos administrativos. Sete deles tiveram como origem denúncias feitas por Vladimir Timerman. A atuação insistente do gestor na autarquia rendeu embates com diretores, com o corpo técnico e com o então presidente da CVM, João Pedro Nascimento.

Antes de deixar o comando da CVM, em 2025, João Pedro acionou a Justiça contra Timerman. Nos autos, Timermann é acusado de promover manobras de coação e intimidação para constranger e pressionar a autarquia reguladora na pessoa de seu dirigente.

Na pista paralela, há ainda registros judiciais de conflitos fora do mundo das finanças. Uma motorista, em 2021, acusou o gestor formalmente por ameaça e perseguição em decorrência de uma discussão ocorrida no trânsito.

O episódio é, inclusive, citado pelas defesas de seus opositores no mercado financeiro para tentar demonstrar em juízo o que alegam ser um “padrão de conduta” hostil por parte de Timerman. O gestor, por outro lado, ironiza a situação, afirmando que seus opositores viraram sua vida “de ponta cabeça” e a única coisa que conseguiram encontrar para atacá-lo foi a “briga de trânsito”.

Guerra

Em outro episódio da guerra entre Tanure e Timerman, Tanure apresentou uma notícia-crime onde afirma que Timerman teria oferecido uma trégua em troca da venda de ações. De acordo com os autos, Timerman propôs vender a Tanure um lote de R$ 4,7 milhões de ações da construtora Gafisa por R$ 55 cada papel. Na data da proposta, 10 de fevereiro de 2023, as ações da Gafisa no mercado valiam apenas R$ 9,81.

Em depoimento judicial, Nelson Tanure declarou que a atuação de Timerman em prol dos acionistas minoritários era apenas uma “máscara” para tentar extorqui-lo. Segundo Tanure, Timerman enviou mensagens a terceiros exigindo R$ 2 bilhões, sob a ameaça de que teria “bombas atômicas” (informações falsas prejudiciais) contra suas empresas. A denúncia deu origem a um processo criminal por extorsão.

Em outro processo criminal em que Timerman foi condenado, ficaram registrados nos autos que o gestor teria tido benefícios financeiros com o modelo de ataque adotado pelo fundador da Esh Capital. O processo foi movido por Daniel Alberini, que acionou a Justiça contra Timerman por difamação.

Sócio da gestora CTM Investimentos, Alberini foi alvo de um artigo publicado por Timerman. No texto, Timerman imputava a Alberini irregularidades relacionadas aos fundos que investiam na Mobly. No dia da publicação, as ações da Mobly caíram 24,17% e mais de R$ 20 milhões foram resgatados dos fundos que investiam na rede de móveis.

Testemunhas ouvidas nos autos apontaram que Timerman teria montado uma estratégia para lucrar com o colapso. A própria sentença condenatória destaca que, em seu interrogatório, Timerman admitiu ter tido lucros com a publicação do artigo. Ele declarou que “não vê problema em ganhar dinheiro com a análise correta feita por ele”.

Uma ação civil pública movida pela Associação Brasileira de Investidores (Abradin) aponta outros casos em que Timerman teria lucrado ao espalhar opiniões e informações supostamente infundadas a fim de causar oscilações nas ações de companhias listadas na Bolsa de Valores. A peça, apresentada em 2023, cita movimentações atípicas nos papéis de Gafisa, Mobly e Terra Santa, e cobra da Esh o pagamento de mais de R$ 20 milhões por danos coletivos.

Pedido de proteção

No início do mês, Timerman acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para pedir sua inclusão no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (Provita). Na peça, os advogados do gestor falam em um risco “crescente”. De acordo com a petição, Timerman teria manifestado por escrito o receio em relação à sua integridade física em quatro ocasiões desde 2024.

O principal argumento é de que o gestor teria sido citado em conversas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”.

O documento destaca um diálogo entre Vorcaro e Sicário em agosto de 2024 obtido pelos investigadores no qual o comparsa defende uma “medida mais drástica contra Vladimir” e “contra o advogado”.

Sicário, que se matou após ser preso pela Polícia Federal (PF) em março de 2025, é tido pelos investigadores como operador do grupo “A Turma”, uma suposta milícia privada que atuaria a mando de Vorcaro.

O pedido de Timerman foi encaminhado para a Procuradoria-Geral da República (PGR) e segue sem resposta.

O gestor costuma falar sobre o acesso que têm aos investigadores da PF. E, de fato, o “inquérito mãe” do caso Master traz trechos de apontamentos feitos por Timerman como operações fraudulentas realizadas com o BRB e a possível atuação de Nelson Tanure como “sócio oculto” do Master.

Ao Metrópoles, Timerman destacou a gravidade das conversas interceptadas em que seu nome é citado. “Eles falam em ‘matar esses negócios’”, relembrou.

O trecho é o seguinte: “Consegue falar com a Turma mais tarde? Tipo umas 15:00 estarei com eles lá na sede. Aí deixamos tudo ajustado com ele e a forma como você quer que eles façam”, escreveu Sicário.

Vorcaro, então, envia mensagem com o selo “encaminhada”: “E tem que mandar a turma pra SP pra matar esses negócios. Tá ridículo esse cara aqui”.

“Sou alvo de 40 processos criminais, minha vida foi revirada de ponta cabeça. O que mais podem fazer contra mim?”, disse Timerman à coluna. “Derrubaram meu whatsapp, fui monitorado 24 horas por dia, me arrebentaram”, completou.

“Eu causo incômodo por cobrar meus direitos. Mas eu vou continuar mandando e-mails, cobrando que as pessoas façam o trabalho deles e denunciando”, afirmou.

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